Com oito livros interativos publicados, todos adapta√ß√Ķes de cl√°ssicos da literatura, o aplicativo¬†Storymax¬†usa a tecnologia dos smartphones e tablets para contar hist√≥rias. Tudo pensado para desenvolver o gosto pela leitura no p√ļblico infanto-juvenil. A ideia foi de dois profissionais da √°rea editorial, a jornalista e editora Samira Almeida, e o designer e ilustrador Fernando Tangi, que, juntos, decidiram que era hora de trazer um novo formato para o mercado.

A primeira hist√≥ria foi ‚ÄúFrankie for Kids‚ÄĚ, de 2013. A adapta√ß√£o de ‚ÄúFrankenstein‚ÄĚ, de Mary Shelley, fala sobre a dificuldade das pessoas de lidar com as diferen√ßas, o que leva ao bullying. ‚ÄúPercebemos que a experi√™ncia de leitura estava mudando. Quisemos projetar livros interativos que combinassem com isso. Usamos o potencial das diversas formas de leitura, como texto, arte, anima√ß√£o, efeitos de som e trilha sonora para transformar tudo isso em uma experi√™ncia de uso s√≥‚ÄĚ, diz Samira. O livro ficou em 2o¬†lugar na categoria digital e interativa do Festival comKids Prix Jeunesse Iberoamericano 2013 e levou ainda o Pr√™mio Artes Digitais e Aplicativos Educacionais, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Depois, vieram outros livros interativos, sempre publicados como aplicativos independentes, a maioria em portugu√™s, ingl√™s e espanhol e um deles tamb√©m em alem√£o, todos dispon√≠veis para¬†Android¬†e¬†iOS. ‚ÄúVia L√°ctea‚ÄĚ, adaptado de um poema de Olavo Bilac, fala do autor brasileiro expoente do Parnasianismo. O livro ganhou o pr√™mio Jabuti de literatura em 2015, ficando em 2o¬†lugar na categoria Infantil Digital.

‚ÄúNautilus‚ÄĚ, baseado na obra ‚ÄúVinte Mil L√©guas Submarinas‚ÄĚ, de Jules Verne, tamb√©m levou o Jabuti em 2017, na mesma posi√ß√£o e categoria. A hist√≥ria √© um incentivo ao desenvolvimento do pensamento inovador, segundo Samira. ‚ÄúA principal raz√£o de adaptar cl√°ssicos √© que eles falam de coisas relevantes. O tempo passou e continuam falando. Faz sentido para todo mundo conhecer‚ÄĚ, explica.

Tr√™s hist√≥rias fazem parte de uma cole√ß√£o sobre os¬†17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustent√°vel) da ONU (Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas), criadas em parceria com a empresa de biotecnologia Novozymes e educadores do Sesi-PR. ‚ÄúFrritt-Flacc‚ÄĚ, de Jules Verne, √© um conto de suspense e terror que discute a mesquinhez e trata da ODS 1, que busca a erradica√ß√£o da pobreza. O livro foi selecionado pela C√°tedra Unesco de Leitura PUC-Rio 2016 pela excel√™ncia em literatura infantil em juvenil. ‚ÄúOstras‚ÄĚ, adapta√ß√£o de um conto do russo Anton Tch√©khov, fala da fome e discute a ODS 2, erradica√ß√£o da fome e agricultura sustent√°vel. ‚ÄúO Rei do Rio de Ouro‚ÄĚ, de John Ruskin, trata da ODS 6, √°gua limpa e saneamento.

H√° ainda ‚ÄúSt. Ives‚ÄĚ, tradicional cantiga inglesa que √© uma charada e trabalha a import√Ęncia da leitura do enunciado antes de tentar resolver um problema. J√° ‚ÄúLiteratour‚ÄĚ, criado em parceria com o Goethe-Institut S√£o Paulo, traz quatro hist√≥rias inspiradas em cl√°ssicos alem√£es para treinar o idioma e falar da cultura do pa√≠s.

Al√©m de terem o objetivo principal de desenvolver o gosto pela leitura, as hist√≥rias contadas pela Storymax querem levar crian√ßas e jovens √† reflex√£o, a√ß√£o e busca da transforma√ß√£o social. Para isso, todos os aplicativos trazem conte√ļdo extra sobre os autores e sobre o tema discutido e prop√Ķem atividades educativas. ‚ÄúA rela√ß√£o com a arte serve para olhar para ela e pensar sobre voc√™ e como lida com as pessoas e com o mundo. Serve para conhecer o passado, pensar o presente, imaginar o futuro e fazer algo em rela√ß√£o a isso‚ÄĚ, afirma Samira.

A ideia, segundo a jornalista, √© que exista uma media√ß√£o no uso dos livros. ‚ÄúPor uma cren√ßa particular, n√£o quero tirar o espa√ßo do mediador, que pode ser um professor, o pai, o av√ī. Falamos de temas relevantes, que trazem reflex√£o. Precisa trocar. Gosto de deixar espa√ßo para fazerem junto com a crian√ßa. Acredito que isso √© muito importante‚ÄĚ, diz Samira.

As hist√≥rias j√° tiveram cem mil leitores no mundo at√© hoje, sendo que 40 mil deles estavam em ambientes escolares formais. O restante eram usu√°rios independentes. Um ter√ßo deles l√™ o livro assim que faz o download, segundo Samira. Os t√≠tulos j√° foram baixados em todos os estados brasileiros e num total de 67 pa√≠ses, incluindo locais com extrema pobreza e zonas de conflito. ‚ÄúTemos leitores at√© no Paquist√£o‚ÄĚ, conta Samira.

O aplicativo tem uma parceria com um sistema de ensino ‚Äď cujo nome n√£o divulga ‚Äď e que introduziu as hist√≥rias em escolas dos Estados Unidos. No Brasil, busca parcerias com outras institui√ß√Ķes de ensino al√©m do Sesi-PR, onde os aplicativos s√£o usados em uma oficina optativa para os estudantes. ‚ÄúComecei a receber v√≠deos dos alunos. Consegui ver o ciclo do produto. √Č maravilhoso ver que o que voc√™ criou e sonhou est√° acontecendo. √Č demais‚ÄĚ, afirma Samira.

Sobre o contato com a educa√ß√£o formal, a jornalista explica que a dificuldade √© conseguir emplacar o uso de um dos livros em algum projeto-piloto nas escolas. ‚ÄúO Brasil tem sido muito desafiador. √Č um mercado sazonal. Tem que acertar o per√≠odo certo para falar com pessoas‚ÄĚ, diz. Al√©m disso, segundo Samira, as escolas mant√™m o uso de apostilas como algo muito enraizado. ‚ÄúAcontece muito de ouvirmos a quest√£o de n√£o ter tablets na escola. Falamos que os alunos t√™m smartphones. Falamos que gostam de usar e querem usar. O pior veneno √© a apostila. Dizem que o aplicativo √© legal, mas precisam usar apostila porque os pais cobram. Este √© um ciclo bizarro da educa√ß√£o. Quero acreditar que isso vai mudar.‚ÄĚ

Parcerias

Dois dos livros s√£o vendidos nas lojas de aplicativos. ‚ÄúFrankie for Kids‚ÄĚ sai por 16,90 e ‚ÄúVia L√°ctea‚ÄĚ custa R$ 9,90. As outras hist√≥rias s√£o gratuitas, assim como o aplicativo Storymax. Uma delas, ‚ÄúSt. Ives‚ÄĚ, √© gratuita mas tem conte√ļdos pagos dentro. A publica√ß√£o gratuita √© poss√≠vel por meio de parcerias com institui√ß√Ķes privadas e pelo financiamento p√ļblico, com uso de editais, e funciona como atrativo para que os usu√°rios conhe√ßam os livros e se disponham a comprar aqueles que s√£o pagos.

A empresa também contou com incentivos de programas de aceleração de startups dos quais participou, como o Seed (Startups and Entrepreneurship Ecosystem Development), de Minas Gerais, Oxigênio Aceleradora, Campus São Paulo, do Google, e 100 Open Startups.

No primeiro semestre de 2018, o aplicativo vai publicar pela primeira vez duas hist√≥rias originais sem texto, que iniciam uma banca de livros de imagem, criadas por ilustradores. ‚ÄúVai nascer com duas hist√≥rias originais. Depois vamos convidar autores para contar outras hist√≥rias‚ÄĚ, diz Samira. Os aplicativos ter√£o um sistema em que o usu√°rio poder√° gravar uma hist√≥ria criada por ele a partir das imagens para ouvir quando quiser.

 

Fonte: Porvir